A MORAL E O SUICÍDIO
Introdução
“Para algumas pessoas, em determinados momentos da vida, pensar na morte como a única saída para uma situação de sofrimento intolerável, talvez pareça a única solução possível. Quando uma pessoa se sente no limite, de tal forma angustiada, desesperada e sem esperança, é compreensível que considere que prescindir do direito de viver, apesar de constituir uma solução permanente, pareça ser a melhor forma de lidar com uma situação que, naquele momento, é tão avassaladora e dolorosa. É como se sentisse que está perdida num labirinto completamente escuro, como se todos os caminhos que permitem o acesso às portas de saída deixassem de existir, e quem mesmo que tentasse percorrer um desses caminhos, isso apenas resultaria em mais um esforço inútil, pois não só encontraria as portas completamente trancadas, como não teria disponíveis as chaves adequadas para as abrir.” (http://oficinadepsicologia.com/depressao/suicidio)
A moral do suicídio
O suicídio é um tema bastante polêmico, sempre foi. Suicidar-se consiste no ato de tirar a própria vida. É uma ação extrema, por ser terminal. Existem “tipos diferentes” de suicídio, de acordo com suas motivações, sendo eles dois, o ‘suicídio verdadeiro’ que os motivos principais são dificuldades financeiras, problemas com relacionamentos, problemas mentais, há também a ‘eutanásia voluntária’ que é quando uma pessoa que está debilitada por conta de alguma doença ou que essa doença a deixe impossibilitada de exercer suas atividades necessárias, de acordo com a filosofia epicuista, na qual diz que o homem deve evitar a dor e buscar o prazer, e nesse caso o prazer seria a morte, o único meio de não sentir mais dor. Nos dois casos, a situação em que se encontra a pessoa a deixa em estado de extremo desespero, não havendo alternativas para dar fim a seu sofrimento, a não ser sua própria morte.
O tema suicídio é desde sempre tratado entre os filósofos, sendo assunto desde os pensadores mais antigos aos modernos. Para Platão o suicídio é apenas permitido em caso extremo, usando como exemplo o caso de um soldado pego por tropas inimigas, para evitar ser torturado para confessar o que não deveria, nesse caso, o suicídio seria considerado um ato heróico, pois serviu para evitar que algo pior acontecesse. Hume afirmava que os seres humanos decidem sobre a moralidade de suas ações, sendo elas movidas por paixões, suas emoções. Segundo ele, uma ação considerada ética é aquela aprovada por grande parte da população, sendo assim o homem já nasce com uma inclinação para o que é correto e o que é errado.
Immanuel Kant coloca-se totalmente contra tal ação. Afirmando que o homem é egoísta, ambicioso e apenas age para o próprio interesse, porém todo ser humano possui razão, sendo assim todo ato considerado de valor moral deveria ser universalizado, entretanto, o suicídio poderia ser universalizado? Para definir o que deve ser considerado como uma ação moral, Kant estabeleceu três “máximas morais”:
“1. Age como se a máxima de tua ação devesse ser erigida por tua vontade em lei universal da Natureza”. Esta regra afirma a idéia da universalidade das ações consideradas morais, que assim o devem ser para todo e qualquer ser humano em toda e qualquer situação.
‘“2. Age de tal maneira que trates a humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de outrem, sempre como um fim e nunca como um meio”. Esta regra afirma o respeito e a dignidade com que se devem tratar os outros seres humanos, que por isso devem ser vistos como um fim e nunca como meios para a obtenção de algo.
“3. Age como se a máxima de tua ação devesse servir de lei universal para todos os seres racionais.” A terceira máxima moral afirma que o ser humano deve sempre agir pensando que suas ações deveriam ser morais o suficiente para serem praticadas por toda a humanidade, ou seja, para que a humanidade viva em um mundo racional ao invés de natural.’ (ÉTICA PARA PRINCIPIANTES, CAP. 11 PÁG. 65 - L. A. PELUSO)
Kant considera imoral uma ação que não obedece a uma dessas três máximas.
Outro ponto de vista importante a analisar para entender a moralidade do suicídio é o dos utilitaristas. O utilitarismo é uma corrente filosófica que surgiu no século XVII, seus dois principais representantes foram Jeremy Bentham e John Stuart Mill. Para eles, a moral é a busca pela felicidade, do praticante e de todos à sua volta, assim todo ser humano vive buscando toda ação que possa lhe proporcionar o máximo de felicidade, evitando tudo o que causa dor, entretanto esse prazer, essa felicidade, não pode ser egoísta.
Partindo desse pressuposto, o suicídio verdadeiro é uma ação imoral. Uma vez que dizer que a morte estará livrando a pessoa de todo o mal, não quer dizer que quem está em volta não sofrerá. Sendo o egoísmo humano demonstrado nessa situação, assim como dizia Kant que o homem é egoísta e apenas se importa com o seu próprio bem-estar, que no caso é a morte, para fugir da dor que o angustia, sendo ela emocional ou física. A interpretação utilitarista é constituída através do fato de que é necessário viver, não é uma escolha nossa.
Há várias razões para chegar a um nível tão extremo a ponto de cometer o suicídio. A pessoa aflita pode ser um estudioso, que conhece o sentido de Nada, estão errados aqueles que afirmam que quem escolhe seguir por esse caminho não possui bases intelectuais. “As Universidades são instituições que se tornam peculiares por essa tensão. É nela que intelectuais experimentam o desespero de, eliminados os preconceitos e as superstições, ter de encontrar razões para viver. Talvez seja por essa razão que as Universidades existem. Elas são agências nas quais o espírito humano busca superar o fato, o destino, que nos impõe a necessidade de existir sem razões necessárias. Talvez intelectuais sejam aqueles que vivem para descobrir razões para viver ou morrer. (...) Ser um intelectual significa perceber que são infundados os preconceitos, as superstições e os horrores que, via de regra, impede o ser humano de praticar as ações autodestrutivas e que são precários os conhecimentos que dispomos e que podem ser razões para viver ou morrer” (L. A. PELUSO, DAS RAZÕES PARA O SUICÍDIO). Existem aquelas razões que são “aceitáveis”, não significando que são aceitáveis por definitivo, como por exemplo, a infelicidade do término de um relacionamento, é compreensível a primeira vista as razões, mas não é totalmente cabível alguém chegar ao extremo por conta de um coração partido.
Conclusão
Mas se o homem é livre porque é imoral o suicídio? Vários filósofos procuram a liberdade absoluta na vida. O sentido de liberdade do ser humano é muito importante e exerce um verdadeiro fascínio. Quem não quer ser dono do próprio destino? Vemos pessoas exercendo essa liberdade de diversas formas, o suicídio é uma delas.
A pergunta é: suicídio vale à pena? Antes de decidir, não se deve deixar guiar pela situação desesperadora que pode ser temporária e embaça o pensamento, mas pela razão. Então, para filosofar sobre o suicídio, deve-se usar a razão e se indagar se o motivo pelo qual se quer morrer tem algum fundamento, pois nunca é acertada uma decisão tomada no desespero.






